Iniciativa Global da OMS para o Câncer Infantil: avanços e desafios na implementação do CureAll Framework
Resumo: O câncer infantil impõe elevada carga de morbimortalidade, medida pelos anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs). Estima-se que, em 2017, tenham ocorrido 11,5 milhões de DALYs atribuíveis ao câncer infantojuvenil em todo o mundo, dos quais 97,3% referem-se a anos de vida perdidos (YLLs) e apenas 2,7% a anos vividos com incapacidade (YLDs), sendo que 82,2% dessa carga concentram-se em países com baixo, médio-baixo ou médio índice sociodemográfico. Apesar dos avanços terapêuticos, cerca de 80% das crianças com câncer em países de alta renda sobrevivem cinco anos após o diagnóstico, enquanto nos LMICs o risco de óbito pode ser até quatro vezes maior, devido a fatores como diagnóstico tardio, barreiras de acesso a serviços especializados, insuficiência de recursos humanos qualificados, custos diretos para as famílias e abandono do tratamento.
Diante dessas disparidades, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou, em 2018, a Iniciativa Global para o Câncer Infantil, operacionalizada pelo CureAll Framework, com a meta de elevar a taxa de sobrevida global para, no mínimo, 60% até 2030. O modelo baseia-se em quatro pilares fundamentais: Centros de Excelência e redes de atenção; Cobertura Universal de Saúde; Regimes padronizados de diagnóstico e tratamento; e Avaliação e Monitoramento contínuos. Além disso, três facilitadores transversais sustentam a iniciativa: advocacy, financiamento e políticas e governança integradas. Na América Latina e Caribe, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) implementa o CureAll Americas, envolvendo 12 países, incluindo o Brasil, com foco em detecção precoce, ampliação da rede de tratamento, fortalecimento legislativo e capacitação de profissionais.
Experiências exitosas já foram observadas em países da região, como o Peru, que aprovou legislação específica para o câncer infantil, expandiu centros de atendimento e reduziu significativamente a taxa de abandono do tratamento; e Panamá e República Dominicana, que obtiveram avanços na detecção precoce por meio de regulamentações e treinamentos. Em junho de 2024, o Brasil relançou o CureAll, reafirmando seu compromisso de ampliar a sobrevida e a qualidade de vida de crianças e adolescentes com câncer, integrando diferentes secretarias do Ministério da Saúde e reforçando a necessidade de políticas públicas embasadas em evidências científicas.
O presente projeto propõe sintetizar e avaliar criticamente as evidências sobre a implementação de políticas públicas para o controle do câncer infantojuvenil, a partir de experiências bem-sucedidas de países participantes do CureAll Framework, com o objetivo de subsidiar ações estratégicas no âmbito do CureAll Brasil. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, guiada pelas diretrizes do PRISMA 2020 e registrada no PROSPERO, estruturada segundo a estratégia PECOS. A busca será conduzida em oito bases de dados internacionais (MEDLINE, EMBASE, Cochrane Library, Web of Science, SCOPUS, Science Direct, LILACS e CINAHL) e complementada por literatura cinzenta e registros de ensaios clínicos. Dois revisores independentes realizarão a triagem, elegibilidade, extração e avaliação metodológica dos estudos, utilizando instrumentos específicos para cada delineamento (RoB 2, ROBINS-I, Newcastle-Ottawa Scale e AHRQ tool), além da classificação do nível de evidência segundo o Oxford Centre for Evidence-Based Medicine e análise da certeza das evidências pelo GRADE.
A análise dos dados considerará a heterogeneidade (estatística I²) para definição do modelo estatístico (efeitos fixos ou aleatórios) e possibilidade de meta-análise, com estimativas agrupadas calculadas no software EPPI-Reviewer. Também será avaliado o viés de publicação por meio de gráficos de funil. Os resultados esperados incluem a identificação de estratégias comprovadamente eficazes, adaptáveis ao contexto brasileiro, capazes de potencializar o alcance da meta de 60% de sobrevida até 2030, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a capacidade de resposta do sistema de saúde.
O impacto potencial deste estudo reside na produção de conhecimento aplicável e oportuno para gestores e formuladores de políticas públicas, contribuindo para uma abordagem integrada de controle do câncer infantojuvenil no Brasil, alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e ao princípio da equidade em saúde.
Data de início: 01/08/2025
Prazo (meses): 36
Participantes:
| Papel |
Nome |
|---|---|
| Coordenador | LUÍS CARLOS LOPES JÚNIOR |
