TRABALHO REMOTO, ATIVIDADES DE BEM-ESTAR E MUDANÇAS NOS HÁBITOS DE VIDA DURANTE A PANDEMIA DA COVID-19: RESULTADOS DO ELSA-BRASIL

Nome: HAYSLA XAVIER MARTINS MENDONÇA

Data de publicação: 19/05/2025

Resumo: Em decorrência da pandemia da COVID-19 e, consequente recomendação de
distanciamento social, ocorreram mudanças nos hábitos de vida de diversas
populações em todo o mundo. Dentre essas, destaca-se a adoção do trabalho remoto
como alternativa para manutenção das atividades laborais. Apesar de apresentar
vantagens, há evidência de que o trabalho na modalidade remota implica em jornadas
mais longas e maior pressão quanto ao desempenho profissional, interferindo em
outros aspectos da vida e saúde dos trabalhadores. Torna-se, portanto, importante
identificar quais foram as condições desse trabalho remoto e sua relação com os
hábitos de vida. Além disso, propõem-se avaliar outras alterações em decorrência do
distanciamento social, como na prática de atividade física e sua associação com a
percepção de ganho de peso. Sendo assim, esta tese de doutorado aborda a temática

das mudanças nos hábitos de vida e trabalho remoto durante a pandemia da COVID-
19. Os resultados estão estruturados em três manuscritos originais. Foram utilizados

dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto – ELSA-Brasil, da segunda visita
de seguimento – Onda 3 (2017-2019) e da Onda-COVID (julho/2020 a fevereiro/2021).
A coleta de dados da Onda 3 foi realizada de forma presencial, onde foram conduzidos
exames clínicos e entrevistas nos Centros de Investigação participantes do estudo.
Na Onda-COVID, a coleta de dados foi conduzida por meio de uma plataforma digital
em que o participante era estimulado a responder a quatro módulos de questionários
que abrangiam perguntas sobre a adesão ao distanciamento social, exposição, sinais
e sintomas de COVID-19, hábitos de vida, alimentação, história ocupacional, dentre
outras temáticas. Os dados foram analisados no programa estatístico Statistical
Package for the Social Sciences – SPSS 21.0, adotando-se o nível de significância de
p < 0,05. O primeiro manuscrito objetivou identificar os hábitos alimentares associados
ao trabalho remoto durante a pandemia da COVID-19, por meio de um estudo
transversal com 2.463 trabalhadores ativos na Onda-COVID. Identificou-se que 78%
estavam na modalidade remota. No modelo ajustado, observou-se maiores chances
de cozinhar entre os indivíduos que estavam em trabalho remoto, tanto para homens
(OR = 2,45 IC 95%: 1,75-3,42), quanto para as mulheres (OR = 2,93 IC95% 2,19-
3,92), em comparação aos em trabalho presencial. Não foi observada diferença entre
os escores da qualidade da alimentação e modalidade de trabalho. No entanto, ao
avaliar o escore mediante o uso de entrega de comida pronta, aqueles que utilizavam

semanalmente apresentaram pior qualidade da alimentação. O segundo manuscrito

teve por objetivo descrever as práticas de atividades de bem-estar durante a COVID-
19 e verificar a associação entre a ocorrência dessas atividades e controle do tempo

de trabalho (CTT) na modalidade remota a partir da análise transversal dos dados da
Onda-COVID. Foram avaliadas as informações de 1.987 trabalhadores ativos que
atuaram na modalidade remota. A atividade mais referida foi “Assistir
TV/Filmes/Séries” (91,2%) pelos homens e “Cozinhar” (93,7%) pelas mulheres.
Modelos de regressão ajustados indicaram que as prevalências de prática de “rezar
ou participar de grupos de oração”, “atividade física/alongamentos dentro de casa” e
“leitura de livros/revistas” foram superiores nos homens com CTT forte, em
comparação aos com CTT fraco (RP = 1,30 [IC95% 1,11 – 1,53]; RP = 1,15 [IC95%
1,02 – 1,31]; RP = 1,08 [IC95% 1,01 – 1,15], respectivamente). Entre as mulheres, as
prevalências de “técnicas de respiração profunda” e “atividade física/alongamentos
dentro de casa” foram significativamente maiores entre aquelas com CTT forte (RP =
1,17 [IC95% 1,005 – 1,37] e RP = 1,16 [IC95% 1,03 – 1,32], respectivamente). O
terceiro manuscrito objetivou identificar a associação entre mudanças na atividade

física de lazer (AFL) e percepção de ganho de peso durante a pandemia de COVID-
19. Foi realizada uma análise longitudinal com dados 4.402 indivíduos entre a Onda 3

e Onda-COVID. Indivíduos que reduziram seus níveis de AFL a ponto de mudar sua
classificação tiveram maior probabilidade de apresentar ganho de peso percebido.
Especificamente, aqueles que eram moderadamente ativos na Onda 3 e se tornaram
sedentários na Onda-COVID (OR = 1,5 [IC95% 1,2-1,9]) ou tinham baixos níveis de
AFL na Onda-COVID (OR = 1,6 [IC95% 1,2-2,1]); eram altamente ativos na Onda 3 e
apresentavam baixo nível de AFL na Onda-COVID (OR = 2,3 [IC95% 1,05-5,4]). Os
resultados da presente tese elucidam algumas das modificações nos hábitos de vida
de servidores públicos brasileiros durante a crise sanitária da COVID-19,
principalmente em relação à alimentação e prática de atividade física. Ademais,
discute-se o papel da transição obrigatória para o trabalho remoto na ocorrência de
determinadas mudanças no estilo de vida dos indivíduos. Por fim, aborda-se ainda a
importância da autonomia e flexibilidade no ambiente laboral remoto, traduzido pela

avaliação do CTT, e o impacto na realização de atividades de autocuidado. Espera-
se que tais achados fomentem o conhecimento sobre um cenário sem precedentes,

como da pandemia da COVID-19, e contribua para discussões futuras em torno dos
desdobramentos das mudanças aqui abordadas.

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