ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA DO SURTO DE ZIKA VÍRUS NO BRASIL E NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Nome: Helaine Jacinta Salvador Mocelin Cássaro
Tipo: Dissertação de mestrado acadêmico
Data de publicação: 17/06/2019
Orientador:

Nomeordem decrescente Papel
Ethel Leonor Noia Maciel Orientador

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
Ethel Leonor Noia Maciel Orientador

Resumo: A epidemia do Zika Vírus no Brasil teve início em outubro de 2015, no nordeste brasileiro, afetou 27 unidades federadas do país e se propagou para mais de 80 países do mundo, causando uma pandemia. Essa epidemia foi marcada por sintomas nunca antes descritos na literatura científica, necessitando de inúmeros estudos e pesquisas para decifrar a história da doença e o potencial teratogênico do vírus. Diante desse cenário, em 2015, o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional por alteração do padrão de ocorrência de microcefalias no Brasil e em 2016, a OMS declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Após pesquisas, descobriu-se que a síndrome congênita associada à infecção pelo vírus Zika compreende um conjunto de sinais e sintomas apresentados por crianças nascidas de mães infectadas por esse vírus durante a gestação como a microcefalia, manifestação mais marcante, assim como pode incluir alterações oculares, desproporção craniofacial e algumas deformidades articulares e de membros, mesmo que na ausência de microcefalia. Durante o período de descoberta dos efeitos da doença, diferentes protocolos sobre a definição de casos foram lançados para instruir profissionais da saúde para a notificação. Essas mudanças frequentes nas recomendações para definição de caso de microcefalia fetal por Zika Vírus, podem ter contribuído para diferentes estimativas de incidência desta síndrome no Brasil, assim como, podem ter afetado o gerenciamento clínico e o suporte as famílias e as crianças diretamente afetadas. Além disso, as condições socioeconômicas e ambientais também influenciam no desfecho dessa doença e podem interferir na assistência a essas famílias. Objetivos: O primeiro objetivo dessa dissertação é descrever como as mudanças protocolares feitas no processo de investigação epidemiológica dos casos de Síndrome Congenita do Zika vírus podem ter afetado às estimativas dessa doença. O segundo objetivo é realizar a distribuição espacial dos casos de Zika Vírus e Síndrome Congênita do Zika Vírus no estado do Espírito Santo por bairros e descrever indicadores sociodemográficos e suas im-plicações no processo saúde-doença. Metodologia: Para o primeiro objetivo, realizou-se um estudo descrito utilizando dados de notificações de prontuários epidemio-lógicos de crianças confirmadas com Síndrome Congênita do Zika Vírus, no período entre 1 de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2016, da Secretaria de Saúde do Estado. Essas crianças foram reclassificadas de acordo o primeiro protocolo de definição de caso, lançado em 2015, e pelo protocolo vigente, lançado em 2016. Para o segundo objetivo, realizou-se um estudo ecológico descritivo que utilizou dados do Sistema de Informação de Agravos e Notificação do ano de 2016, dados de prontuários epidemiológicos da Secretaria Estadual de Saúde do Estado do Espírito Santo de casos de Síndrome Congênita do Zika Vírus durante o período de janeiro de 2015 a dezembro de 2016, bem como informação dos bairros das famílias confirmadas com Síndrome Congênita do Zika Vírus de uma pesquisa de campo, do qual este estudo faz parte. Relacionou-se a doença com variáveis sociodemográficas como abastecimento de água, coleta de lixo, esgotamento sanitário, renda e alfabetização. Resultados e Discussão: Em relação ao primeiro objetivo, nota-se que o primeiro protocolo, lançado em 2015, é mais sensível e o protocolo vigente, lançado em 2016, mais específico. A mudança no protocolo de notificação resultou em dificuldades em relatar casos no Estado do Espírito Santo, que inicialmente relataram um número substancialmente maior de casos fechados (26 casos) em comparação com o período após um protocolo de notificação mais específico (8 casos). Logo, a criança que for notificada pelo protocolo vigente, terá menor oportunidade de triagem para acompanhamento da doença. Em relação ao segundo objetivo, o estado do Espí-rito Santo, no ano de 2016, notificou 2.774 casos de Zika Vírus, sendo 1.939 (69,89%) mulheres e 324 (16,70%) gestantes notificadas com 193 (59,56%) confir-mações de acordo com os dados do Sistema de Informação de Agravos e Notificação. A maioria 645 (57,33%) se declarou não branca e 364 (41,69%) possuem ensino médio completo. 49 (100%) crianças foram notificadas com Síndrome Congênita do Zika Vírus pela Secretaria Estadual de Saúde do Estado do Espírito Santo. Desses, 10 (20,40%) crianças foram a óbito. A média dos indicadores sociodemográficos foram analisados em três distintos grupos, respectivamente, total de notificações por Zika Vírus; Gestantes notificadas com Zika vírus; e casos de Síndrome Congênita por Zika Vírus visitados. A média de alfabetização foi respectivamente 71,13%, 70,95% e 68,34%. A média de renda por salários mínimos foi 1,41, 1,05 e 1.35. A média de cobertura de esgotamento sanitário foi 75,64%, 76,12% e 71,43%, a de lixo foi 90,76%, 91,20% e 89,21% e de água foi 93,83%, 94,14% e 93,82. Considerações Finais: A notificação precoce dos recém-nascidos afetados e o correto di-agnóstico são condições fundamentais para um cuidado abrangente e necessário para o bem-estar da criança e da família. Por fim, dado o conhecimento atual dos efeitos do vírus Zika no desenvolvimento das crianças e notando a maior abrangência do primeiro protocolo, o mais prudente seria uma revisão dos casos “descarta-dos” do início da epidemia, a fim de avaliar se seriam casos prováveis ou confirma-dos por outras especialidades. Além disso, faz-se necessário avaliar se o protocolo vigente é compatível com um sistema de saúde com fragilidades e dificuldades de uniformização de condutas como no Brasil. O perfil e os indicadores sociodemográficos dos casos de infecção por Zika Vírus e Síndrome Congênita do Zika Vírus no estado revelam que o surto teve impactos diferentes em cada classe, grupo social ou gênero, que refletem a persistência e a geografia social da desigualdade no Brasil. Os dados do presente estudo podem fornecer subsídios para promover políticas públicas que apoiem a redução das desigualdades sociais e de gênero, e que tensionem o investimento em cidades saudáveis, planejamento urbano e saneamento ambiental, particularmente no que se refere a acesso a água tratada, coleta de lixo e esgotamento sanitário.

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